sábado, 3 de setembro de 2016

Erros ortográficos insuportáveis


Tenho profunda aversão por erros ortográficos. Ditos e escritos. Mas embirro particularmente com a utilização do imperfeito do conjuntivo que, frequentemente confundido com o presente do indicativo pronominalizado, aparece escrito assim: "ficas-te triste por me ter ido embora ou  gostas-te de me ver partir?" em vez de "Ficaste"/ "gostaste".
E a conjugação do verbo haver, em afirmações deste tipo: "haverão outras coisas"; "Talvez hajam mais dias como este". Ora, o  verbo haver, quando usado no sentido de existir, conjuga-se só na terceira pessoa do singular,  nos vários tempos e modos (nada de haviam, houveram, haverão, haveriam, houvessem). Apenas como auxiliar, equivalente a ter, se conjuga em todas as pessoas. ("Eles nunca haviam encontrado nada de semelhante", por exemplo).
Diz aqui a senhora professora. E diz, também, qualquer gramática ou prontuário ortográfico, que podem (e devem) ser consultados quando há dúvidas.
Enfim, toda a gente deveria ter aprendido isto. Mas não parece...
Por mim, isto é tão grave que chega a ser motivo para acabar um namoro, por exemplo. Ou quase... É que não gosto mesmo nada de erros ortográficos, tal como não gosto de homens de sandálias, por exemplo. Apenas por uma questão de (bom) gosto...

quarta-feira, 6 de julho de 2016

"Adorar muito" (ou exageros de amor e outras redundâncias...)


Como se já não bastassem todos os "eu antes prefiro", os "encarar de frente", "eu disse-lhe a ele" e "eu pessoalmente", ou os ainda mais óbvios "subir para cima" e "entrar para dentro", há agora a nova moda do "adoro-te muito", que vai ganhando cada vez mais adeptos.
Lembro-me que foi na escola que comecei a ouvir os adolescentes "adorar muito" o que quer que fosse: do(a) namorado(a) à música do momento, passando pelo prato preferido, ou qualquer outra banalidade. Mas era sobretudo para manifestar um afecto excessivo que a expressão mais se aplicava.
Diversas vezes expliquei, com zelo e paciência, que adorar era sinal de um querer extremo, com um elevado grau de significação, não necessitando, por isso mesmo, de ser superlativizado. Porque a palavra em si mesma já indicia muito amor, uma estima desmedida, devotada, aproximando-se, até, da veneração.
Nada a fazer! Hoje, os "adoro-te muito" alastraram como cogumelos e ouvem-se por todo o lado, ditos pelas mais insuspeitas criaturas, convencidas de que manifestam assim de modo mais expressivo e profundo a intensidade dos seus "sentires".
Enfim, amemo-nos muito, pouco, assim-assim ou loucamente, o que quisermos, mas se adoramos, isso já é tanto, que não precisa de ser "muito".
 Há cada mania mais irritante!...

(publicado pela primeira vez aqui)

domingo, 5 de junho de 2016

Utilidades


Num país onde toda a gente tem a mania que fala muito bem línguas estrangeiras - sendo isso verdadeiro ou nem por isso -, e se importa muito pouco com a sua língua materna, aqui ficam dez frases que podem ser úteis, sobretudo  nos próximos dias,  quer para os que partem para "fora de portas", quer para os que ficam para receber quem nos visita, com a nossa tão afamada "hospitalidade", que nos leva a oferecer ajuda constantemente a qualquer estrangeiro, até mesmo aos que não a querem.
E depois, aprender inglês nunca é demais...

1- Put yourself into the eye of the street (Põe-te no olho da rua)
2- Do you want me to make you a drawing? (Queres que te faça um desenho?)
3- Don't strech yourself! (Não te estiques!)
4- You are getting wood to burn yourself (Estás a arranjar lenha para te queimares)
5- Lower the little ball! (Baixa a bolinha)
6- I am in the inks (Estou-me nas tintas)
7- Go comb monkeys! (Vai pentear macacos!)
8-  Now the female pig twists her tail (Agora é que a porca torce o rabo)
9- Are you armed in a racing mackerel? (Estás armado em carapau de corrida?)
10- There is no bread for crazy people over here (Não há cá pão para malucos)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Dois anos sem o Vasco


Há dois anos, este foi um dia triste, porque o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou cedo demais. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as lembranças e as palavras, sobra a saudade e não é nunca a mesma coisa.
Hoje, faz falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa que tanto e tão bem defendeu e cuja luta é agora quase só vazio e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar. Ah, a falta que o Vasco faz...

O suporte da música pode ser  a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
O suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrando
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


 (Vasco Graça Moura)

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"As seras humanas" do Bloco


Sobre o assunto que tem estado na ordem do dia mais recentemente e que na comunicação social como nas redes sociais já "fez correr muita tinta", num capítulo do que é ser português que poderia intitular-se "simplesmente ridículo", destaco o artigo de Nuno Melo, hoje, no JN, o qual tem, precisamente, este título.
Vale a pena lê-lo todo, mas deixo aqui apenas alguns excertos:

Catarina Martins não gosta do cartão do cidadão. Acha-o atentatório da igualdade de género, sexista, discriminatório. E por isso o BE - extraordinário que é na definição da escala de prioridades políticas - propõe-se gastar milhões para que se escreva cidadania onde, ao que parece, o masculino oprime.
Alguém diga à coordenadora do BE para meter a mão ao bolso - não para relevo da despesa - mas simplesmente para agarrar no cartão que a identifica na função parlamentar. Verá que nele se lê "Cartão do Deputado", na expressão imposta pelo "Estatuto dos Deputados", que o BE aprovou sem rebuço. Em nenhum lado se lê "Cartão do Parlamentarismo" ou "Estatuto do Parlamentarismo"
(...) quando quiser usar da palavra notará que o Regimento da Assembleia da República só utiliza o substantivo masculino, no singular ou no plural, "Deputado" ou "Deputados". E no seu art.º 12º dispõe sobre "o presidente da Assembleia da República", que por acaso teve uma mulher, Assunção Esteves, no cargo, com a incumbência de dirigir os trabalhos e de substituir interinamente "o presidente da República", termo que a Constituição da República, por seu lado, exclusivamente consagra.Consta que o BE candidatou sem drama à função Marisa Matias, outra mulher. (...)
O impulso bloquista ajuda a perceber que o absurdo também tem votos. Mais grave, contudo, é saber-se que a proposta faz igualmente sentido ao PS. Não tanto porque o cartão tenha surgido por decisão do Governo do cidadão José Sócrates, que António Costa quererá ver longe da fotografia. Antes sim, porque um partido que foi fundador da democracia se mostra assim completamente subordinado a uma extrema-esquerda de que depende para sobreviver no poder, transfigurando-se ao ponto de fazer sua uma agenda ridícula, feita de nada. (...)

Ainda a este respeito, poderia, naturalmente,citar outros textos que vale a pena ler. O de Pedro Correia no Delito de Opinião, ou mesmo antes, em Fevereiro, o de Miguel Esteves Cardoso, no Público.
 Mas não é necessário. Enfim, depois do piropo, faltava agora isto. E o que, provavelmente, ainda nos falta ver...

(Entretanto, parece que nesta pretensão bloquista não alinha o PCP. Haja quem tenha bom senso, mesmo do lado da "geringonça". E haja paciência, de todos nós...)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Boas Notícias


Soube hoje que uma nova série do programa "Cuidado com a Língua" está já a ser gravada. É o melhor programa sobre o Português alguma vez feito em televisão no nosso país, muito esclarecedor e educativo, sobretudo nesta fase em que o AO veio piorar ainda mais os maus tratos que lhe são dados todos os dias. E depois, tem Diogo Infante e a voz maravilhosa de Maria Flor Pedroso. Muitas  razões para não o podermos deixar de ver.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Como é que diz que disse?


No DN de hoje, a propósito do novo Ministro da Cultura, pode ler-se a seguinte pérola:
Nasceu em 1950, em Idanha-a-Nova, e licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa um ano antes. Hã? Um ano antes de quê? De ter nascido?
O artigo é assinado por João Céu e Silva que é, julgava eu, um nome bastante conceituado na sua profissão. Não haverá revisão de textos no DN? Ai, estes jornalistas....